O silêncio seletivo do horror

Minneapolis, 27 de agosto de 2025

Antes de tudo, um aviso: não perdi o timing. Escrevo quando posso, e sobretudo quando quero. Sou mãe de duas, trabalho fora, cuido de uma casa e de um marido. Minha vida não cabe em planilha de redação. Não sou escrava do “agora” nem da histeria do algoritmo. Eu sou a lei do meu próprio tempo  e é nesse tempo que escolho olhar para o que muitos preferiram silenciar.

Em Minneapolis, crianças rezavam. Não num banco qualquer, mas numa igreja católica, durante a primeira missa do ano letivo. E então a pólvora decidiu interromper o Pai-Nosso. Duas crianças morreram. Dezessete ficaram feridas. O FBI chamou o episódio de terrorismo doméstico, crime de ódio contra católicos. Mas fora algumas linhas tímidas nos jornais, o mundo seguiu como se nada tivesse acontecido.

Não é curioso? Há tragédias que ganham capa e manchetes que ecoam em múltiplos fusos horários. Há tragédias que viram trending topics, lives, debates inflamados, hashtags que brotam como flores digitais de indignação. E há tragédias que são apenas relatórios, notas curtas e silêncio editorial. O massacre em um colégio católico nos Estados Unidos pertence a essa segunda categoria.

Imaginem o contraste: um atirador de direita, ideologia explícita, mata uma pessoa trans. Isso seria manchete internacional. Lives, análises políticas, trending topics, editoriais sobre “crescimento do extremismo”, hashtags e debates acalorados. Mas uma tragédia em um colégio católico? Apenas notas curtas, relatórios de autoridades, e uma lição amarga: manchetes obedecem mais às conveniências narrativas do que à gravidade dos fatos.

Talvez porque dói admitir que, no Ocidente progressista, há vítimas que valem mais do que outras. Se fosse uma escola trans atacada por um homem branco e conservador, a comoção seria global. Estátuas seriam cobertas de bandeiras coloridas. Presidentes fariam discursos solenes. O algoritmo choraria junto. Mas como eram crianças católicas, a narrativa não rende. Não mobiliza. Não lacra.

Essa seletividade da dor é política, estética e ética. Vidas não são iguais: umas são convertidas em combustível de militância; outras relegadas ao esquecimento. É como se houvesse tragédias de primeira classe — com direito a editoriais inflamados e trending topics — e tragédias de segunda, abafadas para não estragar a estética do discurso público.

A ideia de que “silenciar evita novos ataques” é simplista e não se sustenta diante dos fatos. A responsabilidade jornalística deveria estar na coerência e no contexto da cobertura, garantindo que tragédias sejam reportadas com ética, sem criar heróis ou vilões desnecessários, mas também sem invisibilizar vítimas apenas por conveniência. Portanto, o debate não é “divulgar ou não divulgar”, mas como e por que se cobre cada caso. O problema não é a informação, mas a seletividade e a inconsistência, que muitas vezes fazem com que certos ataques recebam atenção desproporcional ou sejam apagados do radar midiático.

No Brasil, por exemplo, os holofotes estão voltados quase exclusivamente para o julgamento de Jair Bolsonaro, tratado como espetáculo midiático. Enquanto comentaristas e manchetes se debruçam sobre votos de ministros e possíveis desdobramentos políticos, a tragédia em Minneapolis passa en passant, como uma nota de rodapé descartável. A hierarquia do horror, aqui e lá, é a mesma: o que não serve ao enredo, desaparece.

O atirador, uma jovem trans de 23 anos, obcecada por chacinas do passado, deixou registros de ódio contra todos que se possa imaginar — cristãos, judeus, negros, mexicanos, o próprio presidente Trump. Visitou a igreja semanas antes, desenhou seu interior em detalhe, planejou o ataque com precisão, munições compradas legalmente, cálculo frio de um horror meticulosamente arquitetado. Mas nada disso virou narrativa midiática.

Não há poesia, não há editorial inflamado, não há viralidade. Apenas o silêncio que recobre a dor como um manto pesado. E é nesse silêncio que se revela a verdade mais dura: o horror é administrado, não pelo seu tamanho, mas pela conveniência de quem o observa.

Enquanto isso, ativistas conservadores se apressaram a usar a identidade de gênero da autora para demonizar pessoas trans. Mas o prefeito de Minneapolis teve de lembrar: atacar uma comunidade inteira por causa das ações de um indivíduo é a própria perversidade que queremos criticar.

No mercado da comoção, algumas vidas são moeda forte; outras, mera poeira estatística. É perverso, cruel e profundamente humano: queremos sentir a dor do mundo, mas apenas quando ela cabe no roteiro que já aceitamos.

Minneapolis não virou manchete. Virou silêncio. E esse silêncio fala mais alto do que qualquer editorial, mais cruel que qualquer nota de rodapé, mais seletivo do que qualquer trending topic. Ele nos lembra, com acidez, que até o horror tem hierarquia.

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