De Itu para o mundo: publicitário Phillipe Renê dos Santos conquista prêmio em Cannes com campanha antirracista
Projeto desenvolvido para o portal Alma Preta chamou atenção global ao denunciar o racismo estrutural no esporte
Por Mariane Belasco
O talento que nasceu em Itu alcançou o palco mais prestigiado da criatividade global. Philipe Renê dos Santos, publicitário e diretor de arte, acaba de conquistar um Leão de Prata no Festival Internacional de Criatividade de Cannes Lions, considerado o "Oscar da propaganda". A premiação veio pelo projeto "Corredor à Prova de Balas", uma campanha de alto impacto criada para o portal de jornalismo Alma Preta, que expôs o racismo estrutural no esporte de forma genial e corajosa.
A notícia da vitória, recebida em casa enquanto acompanhava a transmissão do festival, foi o ápice de uma jornada que começou em Itu e o levou ao reconhecimento mundial.
“É um sentimento de muita alegria ver um trabalho ser reconhecido de alguma forma nesse festival", conta Philipe. "É uma importância muito grande. É um selo de qualidade conhecido e respeitado no mundo inteiro."
A comemoração tem sido à altura da conquista: uma avalanche de mensagens de carinho e o sentimento de gratidão. Além do Leão de Prata na categoria Entertainment Lions for Sport, a campanha ainda foi finalista em outras duas categorias, um feito notável em um festival que recebe cerca de 26 mil inscrições anuais de todo o planeta.
“Apenas 3% são premiados. Só 1,13% viram Leões de Prata, o que foi nosso caso. Competimos com agências gigantes, com clientes gigantes, com muita verba e muitos recursos. Então ganhar é algo muito difícil", explica.

Um protesto silencioso que ecoou no mundo
A campanha premiada, desenvolvida para a marca Alma Preta, tinha um desafio audacioso: jogar luz sobre o racismo estrutural, especialmente no esporte. A ideia, da qual Philipe participou da concepção e da direção de arte, foi uma ação de guerrilha poderosa.
Um maratonista negro correu uma prova no Rio de Janeiro usando um colete à prova de balas. A imagem inusitada gerou curiosidade imediata no local e nas redes sociais. O mistério foi solucionado ao final da corrida, em uma entrevista para a TV Globo. O atleta revelou que o colete era um protesto.
"Num país onde branco correndo é atleta e preto correndo é ladrão, talvez essa seja a única forma de correr seguro para quem é negro", detalha Philipe sobre a mensagem da campanha. "Uma grande ironia, uma metáfora. Mas que faz sentido se você parar para pensar e tiver o contexto."
A repercussão foi imediata e massiva. Grandes portais de notícia, celebridades, palestrantes e políticos comentaram a ação. O protesto ultrapassou fronteiras, recebendo elogios até da vice-prefeita de Paris, uma ativista da causa negra. Para Philipe, os elementos que diferenciaram o trabalho foram “pertinência, coragem e clareza de mensagem”.
De Itu para os grandes centros
O início da carreira em Itu foi desafiador, longe do epicentro da publicidade brasileira em São Paulo. No entanto, essa distância forjou uma característica essencial: a independência. A veia comunicadora, ao que tudo indica, é de família. Philipe é sobrinho do conhecido jornalista ituano João José “Tucano” da Silva, e primo dos também jornalistas Thiago Sório e Mariane Belasco, mostrando que a paixão por contar histórias influentes corre no sangue.
Questionado sobre os passos mais importantes de sua jornada, ele é direto:
"Os passos mais importantes foram e continuam sendo: não parar de estudar e não parar de tentar fazer coisas que eu acredito."
Seu processo criativo é baseado na "transpiração", buscando gerar o máximo de ideias com a maior qualidade possível, inspirado pelos grandes nomes da publicidade que o antecederam. Para ele, o trabalho em equipe é a base de tudo.
"Ninguém faz nada sozinho. O trabalho em equipe é fundamental", afirma.
Futuro da publicidade
Philipe enxerga o cenário publicitário brasileiro com otimismo, ressaltando seu potencial gigante. Não por acaso, ele lembra que o Brasil foi o primeiro país homenageado na história de Cannes Lions por sua relevância na indústria criativa.
Contudo, ele aponta desafios claros. A pulverização dos canais e a aversão do público à publicidade interruptiva exigem uma nova abordagem.
"Se a comunicação não serve de entretenimento, se só quer te empurrar um serviço ou produto, ela não é bem aceita. Tem que passar a mensagem e ser legal. Se não, é skip ad na certa", analisa.
Sobre o avanço da tecnologia, ele tem uma visão clara do futuro da criatividade:
"A criatividade guia, os dados validam, a inteligência artificial executa."
Para os jovens de Itu que sonham com uma carreira na área, Philipe deixa três conselhos valiosos: defina sua ambição, seja cara de pau para pedir oportunidades e faça bem o que você controla.
Mesmo com um Leão em seu portfólio, seus objetivos seguem os mesmos:
“Para mim não muda nada, vou seguir tentando melhorar meu trabalho e fazer projetos que eu acredito.”
Com os pés no chão e a criatividade sem fronteiras, Philipe Renê dos Santos prova que o talento de Itu pode, sim, conquistar o mundo.
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