Ituano aprova criação de SAF e inicia novo capítulo com Juninho Paulista no comando

Assembleia histórica confirma transformação em Sociedade Anônima do Futebol. Juninho Paulista e Paulo Silvestri assumem 60%, associação mantém 40% e poder de veto. Entenda o passo a passo da mudança e os desafios que vêm pela frente.

Por Mariane Belasco

Um momento histórico

Na noite de 19 de agosto de 2025, o Ituano Futebol Clube viveu um dos momentos mais marcantes de sua história centenária. Reunidos no salão nobre da sede social, associados votaram pela criação da Sociedade Anônima do Futebol (SAF), modelo que já redesenhou o mapa esportivo brasileiro e que, a partir de agora, será responsável por definir os rumos do Galo de Itu.

Com 51 votos favoráveis e 23 contrários, a assembleia extraordinária, que reuniu 74 dos 85 sócios ativos, marcou um novo capítulo na trajetória do Galo Rubro-Negro.

A aprovação consolida a gestão de Juninho Paulista – ex-jogador, campeão mundial de 2002 e principal responsável por trazer estabilidade ao clube – e Paulo Silvestri, que administram o clube desde 2009, e estabelece um arranjo híbrido em que a Dimache Participações Esportivas, empresa da dupla, passa a deter 60% do capital do futebol profissional, enquanto a associação esportiva mantém 40%, dos quais pelo menos 30% de capital votante garantido e direito de veto em decisões estratégicas.

A assembleia contou com discursos acalorados, divergências de opinião e um clima de tensão raramente visto em votações do clube. Com o placar final favorável, o Ituano passa a integrar um grupo ainda restrito, mas em crescimento, de equipes que adotaram o modelo empresarial em busca de sustentabilidade financeira e maior competitividade.


Um processo amadurecido

O presidente da assembleia, o advogado Rodrigo Tarossi, destacou a importância histórica da decisão e o caminho percorrido até a aprovação.

“Em primeiro lugar, digo que foi uma honra presidir aquela que talvez tenha sido a mais importante sessão extraordinária da história do Ituano Futebol Clube, marco de uma nova era. Sempre fui favorável à transformação em SAF, que, na verdade, é uma cisão, já que a Associação Ituano permanece existindo como acionista da Ituano SAF e pode exercer outras atividades além do futebol. Esse modelo é o mais adequado para atrair capital e garantir competitividade”, esclareceu.

Segundo ele, a maioria dos associados também sempre reconheceu a necessidade da transformação do clube em SAF. No entanto, o que se discutia, de fato, era a proposta concreta e o momento certo para a mudança, o que gerou debates intensos e culminou em uma aprovação apertada; sinal da responsabilidade com que a decisão foi tratada.

“Agora, o desafio é transformar essa escolha em resultados que tragam estrutura, investimentos e orgulho à nossa torcida”, complementou.

O projeto de SAF não surgiu de forma repentina: foi amadurecido a partir das mudanças trazidas pela Lei nº 14.193, sancionada em 2021, que criou a figura jurídica da Sociedade Anônima do Futebol e abriu espaço para que investidores assumissem a gestão esportiva, enquanto as associações preservam parte de seus direitos e tradições.

Cláusulas de proteção e equilíbrio de forças

Durante os debates, um dos pontos centrais era garantir que a associação não perdesse completamente o poder de decisão sobre o destino do clube. O torcedor e conselheiro Dado Santoro, voz ativa no processo, ressaltou que a formatação escolhida prevê dispositivos de proteção.

“O tema da constituição da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) no Ituano FC foi amplamente debatido ao longo dos últimos anos, com progressivo amadurecimento do projeto. Entendo que o Clube está pronto para dar um passo à frente, em consonância com a tendência de profissionalização do futebol brasileiro. A proposta preserva integralmente a identidade do Ituano FC — nome, símbolo (escudo) e a vinculação à cidade de Itu — cláusulas que não podem ser alteradas. Nas reuniões com os gestores, foi assegurado que o modelo contempla a entrada de parceiro estratégico, comprometido a aportar novos recursos ao futebol, já contando, ademais, com o apoio da Prefeitura, que dispõe de projetos de cooperação no esporte”, disse.

Esse equilíbrio foi determinante para reduzir resistências. Parte dos sócios temia que o Ituano perdesse sua identidade, transformando-se em apenas mais uma empresa do futebol. O desenho aprovado, no entanto, garante salvaguardas jurídicas que evitam mudanças bruscas de essência e preservam a memória construída ao longo de mais de 75 anos de história.


Identidade preservada

Entre os defensores da proposta estava o advogado e presidente do Ituano, João Paulo Ruiz, que enfatizou a importância de preservar a alma do clube no processo de modernização.

“É sabido que, em muitas experiências, a SAF surge como instrumento de reestruturação para clubes com elevado passivo, priorizando o equacionamento de dívidas pretéritas. Não é o caso do Ituano FC. O Clube encontra-se hoje financeiramente saudável, resultado de anos de gestão responsável conduzida pela Dimache, e em parceria com o nosso Clube, o que cria condições para que a SAF seja concebida primordialmente como plataforma de crescimento — concentrando atenções e recursos em infraestrutura, formação e competitividade do elenco”, reforçou.

O formato aprovado preserva integralmente a identidade histórica do Ituano FC: nome, escudo, cores e vínculo com a cidade de Itu estão resguardados por cláusulas contratuais específicas que vedam sua alteração.

“Desse modo, assegura-se que a modernização do modelo de gestão caminhe lado a lado com o respeito à trajetória e aos símbolos que distinguem o Clube”, pontuou.


O contexto nacional: lições e riscos

A decisão do Ituano não aconteceu em um vácuo. Desde 2022, quando Cruzeiro, Botafogo e Vasco inauguraram o movimento das SAFs no Brasil, o país tem observado experiências contrastantes.

  • Cruzeiro: adquirido por Ronaldo, saiu da Série B e reconstruiu parte de sua credibilidade, ainda que enfrente dificuldades financeiras.
  • Botafogo: com John Textor, tornou-se protagonista no Brasileirão, mas viveu crises políticas e acusações de interferência externa.
  • Vasco: comprado pela 777 Partners, experimentou ascensão rápida, mas hoje sofre com instabilidade da gestora e dúvidas sobre o cumprimento de compromissos.

Clubes de médio porte também entraram no movimento, como América-MG e Coritiba, servindo de guia e alerta para os sócios do Ituano.


A votação

O clima na noite da votação era de expectativa. Antes da contagem, discursos foram feitos tanto por apoiadores quanto por opositores. Parte da resistência vinha de sócios mais antigos, preocupados com a entrega do controle a investidores privados. O placar final, contudo, mostrou maioria significativa favorável à proposta.

Apesar do peso da decisão, a assembleia transcorreu de forma democrática e transparente, com detalhamento dos termos do contrato e ampla possibilidade de manifestação dos presentes.


Um futuro em aberto

Mais do que um simples modelo jurídico, a SAF representa uma mudança de mentalidade. O futebol brasileiro passa a conviver com investidores que buscam retorno econômico e resultados esportivos. Para o Ituano, a questão central é: como equilibrar o DNA comunitário de clube interiorano com a lógica empresarial global?

O clube que já desafiou gigantes no Paulistão, revelou talentos e escreveu páginas inesperadas na história do futebol paulista, entra em uma nova era. Uma era que carrega promessas de investimento, mas também riscos de dependência de capitais externos.


O papel de Juninho Paulista

Desde 2009, Juninho Paulista transformou o clube em exemplo de estabilidade esportiva. Sob sua liderança, o Galo conquistou dois Campeonatos Paulistas (2014 e 2021), manteve-se financeiramente equilibrado e ganhou respeito por sua organização. Foi ele quem articulou a estrutura da nova empresa, trouxe investidores parceiros e desenhou o modelo de governança.

A SAF do Ituano nasce, portanto, diretamente ligada à sua visão de futuro.


Próximos passos

  • Registro do novo estatuto da SAF em cartório.
  • Capital social dividido: associação (40%) e Dimache (60%).
  • Profissionalização da gestão: definição de diretores executivos e estrutura administrativa da SAF.
  • Reforços e orçamento: metas financeiras para 2026, incluindo contratações e investimentos em categorias de base.
  • Estádio Novelli Júnior: avaliação de obras e melhorias para aumentar receitas com bilheteria e eventos.
  • Integração com a cidade: criação de mecanismos de transparência para manter os torcedores próximos ao processo.

O que muda para a torcida com a SAF do Ituano?

  • Gestão: Juninho Paulista e Paulo Silvestri seguem à frente.
  • Identidade: nome, escudo, cores e vínculo com a cidade preservados.
  • Estádio e sede: continuam sob responsabilidade da Prefeitura e da associação.
  • Investidores: entrada de novos parceiros possível, respeitando cláusulas de controle.
  • Lucros: parte significativa reinvestida no futebol.
  • Benefícios: transparência, profissionalização, atração de investidores, proteção do patrimônio e planejamento estruturado.
  • Comunidade: manutenção das atividades tradicionais e projetos sociais.

Linha do tempo até a SAF

  • 2009: Juninho retorna à diretoria do clube ao lado de Paulo Silvestri.
  • 2010: Juninho atua como jogador antes de se dedicar integralmente à gestão.
  • 2024: Primeira tentativa formal de transformar o clube em SAF, sem quórum.
  • 2025: Segunda tentativa, aprovada com 51 votos a favor e 23 contra.

Principais mudanças e cláusulas aprovadas

  • Contrapartida financeira à associação.
  • Cláusula mínima de capital votante: associação mantém pelo menos 30%.
  • Proibição de exclusão das modalidades.
  • Reinvestimento de lucros: sugestão de 25% no futebol.
  • Uso da estrutura do clube: requer pagamento ou cessão onerosa.
  • Direito de veto ampliado.
  • Cláusulas anti-diluição protegem controle da Dimache.

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