A responsabilidade de proteger a infância na era digital
Confissão de mãe neurótica: sim, eu sou neurótica MESMO — e meus cinco centavos sobre proteger a infância na era digital tão aqui!
Se você (tem paciência para ler textão) acha que celular para criança só depois que ela trabalhar e pagar a conta, vem pro meu texto que tá cheio de reflexões importantes (e umas pitadas de mãe neurótica, claro).
A responsabilidade de proteger a infância na era digital
O criador de conteúdo Felca publicou recentemente um vídeo denunciando a adultização precoce. Até o momento em que escrevo, ele já ultrapassou 31 milhões de visualizações. Esse número impressionante vai muito além da viralização: significa que milhões de pessoas foram expostas a um debate que raramente ganha espaço com tamanha força e alcance. Talvez mais importante do que os números seja o fato de que ele não monetizou o vídeo, transformando-o em um verdadeiro serviço de utilidade pública, algo raro num ambiente digital dominado por métricas e monetização.
Infelizmente, até esse ato foi capturado pelo clima polarizado em que vivemos. Surgiram discussões dizendo que o vídeo foi politizado, que se trata de uma narrativa da esquerda e que haveria interesses ocultos por trás. Algumas pessoas afirmam que é ingenuidade acreditar que alguém possa fazer uma denúncia dessas sem ganho pessoal. O pior é que essa briga entre esquerda e direita, alimentada por desconfianças e teorias conspiratórias, acaba tirando o foco do que realmente importa. Enquanto alguns se ocupam em deslegitimar a motivação do criador, a discussão sobre a proteção da infância vai ficando em segundo plano.
Isso revela um problema ainda maior: quando um tema urgente e de interesse coletivo é sequestrado por disputas ideológicas, não só perdemos a oportunidade de avançar na solução como também normalizamos o silêncio. E o silêncio, nesse caso, custa caro, porque quem se beneficia dessa distração são exatamente aqueles que exploram e expõem crianças para ganhar dinheiro ou audiência.
Muitos influenciadores de nichos distintos, inclusive alguns católicos, permaneceram calados. Talvez nunca tenham tido a oportunidade, a ideia ou até mesmo a coragem de tocar nesse assunto. Esse silêncio fala muito.
Como mãe de duas meninas pequenas, não perdi o timing deste texto, mas aqui em casa as reflexões só acontecem quando as crianças deixam e o tempo permite. Celular, por exemplo, só quando elas trabalharem e puderem pagar. Não por medo irracional, mas por consciência do risco real que os dispositivos representam em mãos indevidas. E não venha me dizer que instalar programas de controle parental resolve o problema. Não resolve. O que realmente protege é não ter celular e não ter acesso. Ainda assim, sei que muitas vezes a exposição vem por tabela, por meio do aparelho de um amigo, de um primo ou até de um adulto desatento.
Segundo a SaferNet Brasil, 58% das crianças e adolescentes brasileiros já tiveram contato com conteúdo sexual online, seja intencionalmente ou por acidente. Estudos internacionais indicam que essa exposição precoce pode gerar distorções na percepção sobre relacionamentos, consentimento e autoestima. É disso que estamos falando quando usamos o termo adultização infantil.
Na publicidade, por exemplo, a propaganda infantil é proibida justamente para resguardar crianças de mensagens e influências inadequadas para sua idade. Ainda assim, vemos todos os dias situações que ultrapassam esse limite, muitas vezes com a anuência ou a participação de adultos que deveriam cuidar, e não expor.
Quando alguém com grande alcance decide usar sua voz para denunciar práticas nocivas, cumpre não só um papel social, mas também abre espaço para que mais pais, educadores e empresas repensem seus papéis na proteção da infância. Que mais influenciadores e profissionais usem suas plataformas para proteger, e não explorar. E que nós, como sociedade, estejamos dispostos a discutir, educar e agir. A responsabilidade é coletiva e o silêncio também é uma forma de omissão.
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