Maternidade e mercado de trabalho: entre demissões, renúncias e reinvenções, as mães desafiam o sistema

Por Mariane Belasco

O nascimento de um filho costuma ser retratado como um dos momentos mais sublimes da vida de uma mulher. Mas, para muitas profissionais brasileiras, a chegada da maternidade vem acompanhada de um empurrão silencioso para fora do mercado de trabalho. Demissões, assédio moral, adoecimento emocional, falta de acolhimento e uma estrutura laboral que penaliza a maternidade são parte da realidade enfrentada por milhares de mulheres todos os anos.

As estatísticas escancaram essa desigualdade. Segundo estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV), 50% das mulheres perdem seus empregos até 24 meses após o fim da licença-maternidade. A maior parte dessas demissões ocorre sem justa causa e por iniciativa dos empregadores.

A pesquisa analisou a trajetória de emprego de mães brasileiras entre 47 meses antes e 47 meses após a licença, e mostrou que a queda na empregabilidade começa imediatamente após o término da proteção legal de quatro meses garantida pela CLT. Mesmo entre mulheres com alta escolaridade, a taxa de desligamento após 12 meses é de 35%. Entre as com menor escolaridade, chega a 51%.

Já o relatório Women @ Work 2024, da Deloitte, reforça que o problema é estrutural e global.


📊 Panorama da exclusão materna no trabalho

(Fonte: relatório Women @ Work 2024 – Deloitte)

  • 94% das mulheres acreditam que solicitar trabalho flexível prejudica suas chances de promoção.
  • 49% temem por sua segurança no deslocamento ou no ambiente de trabalho.
  • 22% são a principal fonte de renda da família, ainda que sobrecarregadas com tarefas domésticas.
  • 27% afirmam não desejar cargos de liderança, em muitos casos pelo alto custo emocional.
  • Apenas 6% das mulheres brasileiras dizem trabalhar em empresas verdadeiramente inclusivas.

A exclusão das mães é uma prática silenciosa, persistente e, muitas vezes, naturalizada. Mas entre os números, também surgem caminhos diversos: há mulheres que decidem ficar em casa por escolha, outras que empreendem e encontram nova força longe do emprego formal, e aquelas que, com apoio e oportunidades, alcançam cargos de liderança.


👩‍💼 O ponto fora da curva: a mãe que chegou à liderança continental

Na contramão do que mostram as estatísticas, a história de Lívia Fernandez Netto Morais é um exemplo raro de conciliação bem-sucedida entre carreira e maternidade. Mãe de Manuela, ela foi promovida ao cargo de Gerente Sênior de Recursos Humanos (RH) para a América do Sul na Culligan, líder mundial em soluções para tratamento de água.

“Quero crescer profissionalmente e também ser o melhor exemplo de mãe para minha filha. Tenho feito um bom trabalho equilibrando essas duas funções. Meu coração dói quando preciso viajar, mas sei que ela está bem amparada pela minha rede de apoio”, afirma.

Lívia relata que chegou a considerar abandonar a carreira, mas desistiu da ideia por amor ao que faz:

“Me sinto feliz, animada e engajada no trabalho. As adversidades corporativas me desafiam e me ajudam a crescer como pessoa e mãe.”


💔 Quando a demissão vem no dia da volta

Carolina Schiavon, 44, viveu o outro extremo. Escrevente notarial por 13 anos, foi dispensada no dia em que retornou da licença-maternidade.

“Não recebi nem um parabéns pelo nascimento do meu filho. No retorno, disseram que não havia mais lugar para mim. Fiquei devastada. Tive depressão pós-parto, crises de ansiedade e me sentia culpada por ter engravidado.”

A experiência levou Carolina a repensar sua relação com o trabalho:

“Aprendi a impor limites. Hoje atuo como assistente social concursada. Faço meu trabalho com responsabilidade, mas priorizo minha família.”

Ela acredita que empresas e governos ainda falham em oferecer suporte adequado no retorno da mãe ao trabalho:

“Precisamos de estabilidade emocional, apoio psicológico e punições efetivas para empresas que discriminam mães.”


👶 A escolha de sair

Já Viviane Balbino, 49, fez outro caminho. Professora da rede pública, utilizou todas as possibilidades legais para estender a licença até decidir se exonerar:

“Fui saindo aos poucos, entendendo que queria viver a maternidade em plenitude. A perspectiva de retornar à sala de aula me causava crises de ansiedade. Preferi reduzir a renda, mas estar integralmente com meus filhos.”

Ela hoje atua como doula, profissão que lhe permite manter-se ativa em um ritmo compatível com a criação dos filhos:

“Foi uma escolha consciente. Fui mãe mais velha, e não queria perder etapas.”


🔁 Reinventar-se é resistir

A experiência de Nayara Alaíde Capati, 31, é marcada por sucessivas demissões, assédios e adoecimento emocional. Mãe de quatro filhos, ela foi demitida em três das quatro gestações:

“Na terceira gravidez, trabalhei durante toda a licença. Na quarta, fui humilhada e demitida logo na volta. Tive burnout e síndrome do pânico.”

Essa realidade a levou a mudar completamente de vida:

“Descobri novas habilidades e hoje empreendo com marmitas fitness e uma loja de equipamentos. Não sou mais funcionária, sou dona do meu tempo e estou perto dos meus filhos.”

Ela denuncia a falta de humanização no ambiente corporativo:

“As empresas querem que você tenha espírito de dono, mas tratam você como descartável. Precisamos de um mercado que veja funcionários como seres humanos, não como números.”


🔧 O que pode mudar?

Flexibilização de jornada, aumento da licença para seis meses, creches corporativas, programas de retorno gradual e apoio emocional são medidas citadas por especialistas e pelas próprias mães como caminhos para reter talentos femininos e humanizar relações de trabalho.

Mais do que adaptar as mulheres às regras do mercado, é o mercado que precisa rever suas estruturas. Porque, como resume Carolina:

“Nada é mais importante que nosso filho. O trabalho é parte da vida, não o centro dela.”


💬 Um conselho de mãe para mãe

“Você é muito mais do que uma carteira assinada. É o amor da vida de um ser humano. Não se diminuam para caber em lugares que não são para você. Reinvente-se se for preciso. Toda escolha feita com amor é digna. E a maternidade não precisa ser o fim de uma carreira. Pode ser o início de uma nova vida.”
— Nayara Capati

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